Da origem de pedra à pele, muretas de Santos são motivo de orgulho

LUIGI DI VAIO

Nascem gêmeas e pesando entre 80kg e 100kg, com 1,1m de comprimento, por 52 centímetros de largura e sete centímetros de espessura. Nascem quadradas e com um círculo interno. Nascem de um parto demorado, feito em equipe. Nascem frutos da “união” entre areia, pedra, cimento e água, onde vai acrescentada uma estrutura de ferro para ficar “mais forte”. E nascem sem conhecer a paternidade. O berçário fica em um pequeno espaço na Região Central. Quem as vê em várias partes de Santos, mal sabe quão complexa é a criação de um dos símbolos da Cidade: as icônicas muretas. Um dos últimos locais que está recebendo estas peças é a Praça do Céu, na Vila Progresso. 

O armador da Secretaria Municipal de Serviços Públicos (Seserp) Leonardo Fagundes de Souza é um dos membros da equipe que faz “nascer” as muretas. Ele conta que cerca de dez peças ficam estocadas “para emergência” em seu local de trabalho, enquanto a produção segue para suprir a demanda. 

Leonardo explica que para o “parto” das muretas são acrescentados cimento e areia em uma betoneira, na fase inicial. Depois é acrescida água. Se não há choro no processo, há uma fumaça que sai desta mistura, indicando a produção. Essa massa depois segue para um molde onde, após breve tempo, é acrescida a estrutura de ferro, tornando as peças mais resistentes. 

O armador não esconde o orgulho de ajudar a construir uma peça que é símbolo da Cidade. “É legal saber que o que fazemos aqui acaba sendo fotografado por santistas e turistas, e vira item de recordação”.

A ORIGEM DAS MURETAS

A historiadora da Fundação Arquivo e Memória de Santos (Fams) Lilliam Tavares conta que, para falar das muretas como símbolo da Cidade, é necessário entender o contexto de Santos no início do século passado. Dois acontecimentos de escala mundial afetaram o Município: a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque (EUA), em 1929, e a recuperação de Santos dos efeitos da Segunda Guerra Mundial. “Por mais que o Brasil estivesse distante do conflito, os efeitos foram sentidos no País. Em Santos, em especial, acarretou na baixa movimentação do Porto e no comércio de café”.

Em contraponto a estes dois acontecimentos, cita Lilliam Tavares, o Turismo nacional estava em ascensão. “Até em decorrência da Segunda Guerra, os brasileiros passaram a buscar destinos nacionais para suas viagens. Aliado a isso, a popularização dos automóveis fez muitos procurarem cidades balneárias como Santos”. Neste contexto, segue a historiadora, “o poder público começou a promover avanços urbanísticos para tornar a Cidade mais atrativa e, dentre as obras realizadas, uma das mais importantes foi a construção da Avenida Almirante Saldanha da Gama, na Ponta da Praia, que já abrigava clubes náuticos”. A Prefeitura providenciou um aterramento na faixa de areia, e construiu um muro com o objetivo de conter o avanço da maré.

Nascia assim o embrião das muretas: como a ideia era tornar a Cidade atrativa turisticamente, foi pensado um elemento decorativo para esse muro. Em 1941, o chefe do Departamento de Obras Públicas da Prefeitura, Carlos Lang, apresentou esse elemento. Detalhe: ele não elaborou o desenho das muretas. Não se sabe quem foi o autor do traçado das peças inspiradas no estilo Art Déco. O projeto foi aprovado em 1943 e elas foram concluídas em 1945, ano emblemático para Santos porque foi inaugurado o Aquário Municipal.

DAS RUAS PARA A PELE

A popularidade das muretas cresceu ao longo dos anos. Hoje, elas são identificadas como um dos símbolos de Santos, e foi esse aspecto que motivou a produtora de vídeo Lorraine Lopes a imortalizar este ícone na pele. “Amo minha cidade, de verdade. O santista fala que é muito bairrista, não tenho dúvida”.

Lorraine conta que todas as tatuagens que fez têm um significado especial. “A das muretas é uma das minhas preferidas. Escolhi mostrar na minha pele o lugar que eu amo”. 

FOTOS: Carlos Nogueira e Nathalia Filipe/PMS

 

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Fonte: Prefeitura de Santos


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