Proibição x compulsão: por que as dietas restritivas nem sempre são garantia de perda de peso?

Jejum intermitente, low carb, paleolítica, Dukan, sem glúten ou sem lactose são algumas das dietas associadas ao emagrecimento e que, às vésperas do verão, ganham ainda mais atenção nas redes sociais. Todas têm um mesmo ponto em comum: a restrição de determinados tipos de alimentos.

Todas promovem uma redução drástica ou proibição de determinados itens. Você já tentou alguma delas e não conseguiu perder peso?

👉 Segundo especialistas, uma das explicações para a falta de sucesso com cardápios recheados de proibições é que as pessoas não conseguem manter uma dieta restritiva a longo prazo, e a tendência é que, com a proibição de certos alimentos, tenham momentos de compulsão e comam até em quantidades maiores ao abandonar a dieta.

A restrição alimentar prolongada, de idas e vindas em dietas desse tipo, pode também podem gerar uma mudança metabólica (em relação a como o nosso corpo reage aos alimentos), fazendo com que seja mais difícil perder peso no futuro.

Por que é tão difícil manter uma dieta restritiva?

Biologicamente, para perder peso é preciso comer menos do que o corpo precisa para ter energia para vivermos. É o chamado déficit calórico. Com isso, o organismo vai usar o que há de reserva e o resultado é a perda de peso.

🚨 O que os especialistas explicam é que a conta não é tão simples. Até é possível perder peso com esse tipo de dieta, mas há grande chance de recuperar o peso e até em mais volume do que se tinha antes.

Ainda há pesquisas que mostram que, no longo prazo, a restrição pode alterar o metabolismo e, com isso, fica ainda mais difícil perder peso no futuro.

Quando se priva o corpo da quantidade de energia que ele precisa, ele não volta a gastar a mesma quantidade de calorias para o seu metabolismo. Essa é uma reação como uma forma de poupar energia, já que ele não sabe quando vai entrar de novo em restrição. Afinal, o corpo não sabe que se está de dieta.

Como uma vida de restrição afeta a relação com a comida e o corpo

Na tentativa de manter o foco, a pessoa em dieta pode acabar em um ambiente de terror. Na tentativa de ter resultado, entra em uma rotina com uma lista interminável de alimentos proibidos: do chocolate, bolo, pizza, brigadeiro ao pão, arroz e até frutas.

Já sentiu que parece que é só estar de dieta que vê comida que não pode em todo lugar? Ou que alivia com pedaços de pizza a mais no fim de semana depois de comer frango com salada a semana toda? E até que não poder ter uma barra de chocolate porque é capaz de comer tudo?

Esses comportamentos podem parecer inofensivos, mas segundo especialistas são um sinal de alerta. Os episódios podem se tornar recorrentes e criarem uma relação de terror com a comida e até doenças, como os transtornos alimentares.

Há várias pesquisas que relacionam dietas restritivas a compulsão e transtorno alimentar:

Uma pesquisa do departamento de psiquiatria da Universidade de Melbourne, na Austrália, analisou 2,2 mil adolescentes. Do grupo, 42% das meninas faziam dieta e para os meninos o índice era de 12%. Segundo a análise, a exposição dessas pessoas à dieta e restrição alimentar (como reduzir a ingestão de carboidratos, contar calorias e pular refeições) aumentou em 18 vezes a chance de desenvolver um transtorno alimentar.

Um estudo publicado em 2022 feito pelo departamento de Saúde Mental Comunitária, da Universidade de Haifa, em Israel, apontou a relação entre a restrição alimentar e desejo por comida e emoções negativas. A pesquisa observou 123 pacientes e percebeu que quanto mais exposta a restrição, mais sujeita a pessoa estava a sentimentos como desejo por comida, fome, emoções negativas.

O médico psiquiatra Fábio Salzano, coordenador do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim), da Universidade de São Paulo, diz que, em 31 anos de experiência com comportamento alimentar, é recorrente ver a restrição como gatilho para doenças.

Costumo dizer que nem toda dieta leva a um transtorno alimentar, mas todo transtorno alimentar começa com uma dieta. A pessoa engajada em uma dieta restritiva tem quadros de ansiedade agravados, distorce sua autoimagem e prejudica sua vida social. — Fábio Salzano, psiquiatra e coordenador do Ambulim

Os transtornos alimentares mais comuns são:

Como identificar transtornos alimentares e buscar tratamento

De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria, estima-se que mais de 70 milhões de pessoas no mundo sejam afetadas por algum transtorno alimentar.

“O transtorno vem gradativamente no processo de dieta. Por exemplo, na bulimia, a pessoa não consegue manter a dieta e cai em uma compulsão. Para evitar ganhar peso, ela procura uma forma de colocar aquele alimento para fora, seja vomitando ou usando laxante”, explica Salzano.

Esse é o caso da publicitária e influenciadora Ciça Campos, que lutou contra a bulimia por sete anos. Ela lembra que tudo começou, em 2013, com uma dieta depois de engordar em um intercâmbio.

Eu fui na nutri, peguei o cardápio e fiquei focada. Estava desempregada e passava horas na academia. Até que passei a restringir ainda mais para ter resultado e começaram os episódios de compulsão. Eu fazia dieta na semana, mas no fim de semana me descontrolava até o dia que comi tudo que tinha na geladeira e peguei um hambúrguer congelado para comer. — Ciça Campos, que enfentou a bulimia por sete anos.

Ciça conta que desenvolveu uma obsessão ao ponto de ligar em restaurantes para saber o cardápio antes, levar marmitas às festas, e não se permitir nada fora da dieta.

“Eu estava com depressão, sentia que tinha falhado na carreira, estava destruída. Mas quando postava uma foto de biquíni as pessoas me elogiavam. E se me vissem malhando ou com marmitas nas festas, diziam que queriam ser como eu”, conta.

Ciça Campos fala nas redes sobre sua trajetória com transtornos alimentares

Foram dois anos até reconhecer o transtorno alimentar e começar o tratamento. Hoje, cinco anos após ter alta, usa sua história para ajudar outras pessoas na luta contra a pressão estética e transtornos. Ciça é influenciadora e fundou a Ilka, uma rede de cuidados de saúde para mulheres, com foco em transtorno alimentar.

Como o psiquiatra explicou, não é todo mundo que vai desenvolver um transtorno alimentar. No entanto, há outros efeitos colaterais de uma vida com restrições que também precisam de acompanhamento. O psiquiatra cita alguns:

“As pessoas fazem dieta para o verão, para o carnaval, para o fim de ano. É uma obsessão pelo peso sem se perguntar o porquê querem emagrecer. A resposta é porque se baseiam em um ideal de corpo que está na TV, nas redes sociais. Viver de dieta não é só desgastante, mas adoecedor”, diz o psiquiatra.

Importante: as dietas são usadas nos tratamentos de pessoas com restrição de determinados alimentos por questões de saúde como diabetes, doença renal crônica, insuficiência do pâncreas e alergias.

No caso da obesidade, essa é uma doença multifatorial, que não tem relação apenas com uma ingestão menor de alimentos, mas com fatores genéticos, ambientais e outras condições de saúde.

Se não adianta fazer dieta, o que é possível fazer?

Abandonar o hábito da dieta, ainda mais nesta temporada do ano em que só se fala disso, pode não ser uma tarefa fácil. O que os especialistas dizem é que antes de buscar uma maneira de perder peso, é preciso se perguntar: por que preciso perder peso?

Se o desejo for para caber em uma roupa, ir à praia no verão, a um casamento ou formatura. Talvez, devesse se perguntar:

o que há de errado com o seu corpo do dia a dia que não pode estar nesses lugares?

Então, se fazer dieta restritiva não adianta, qual a alternativa?

Pesquisadores e especialistas de nutrição têm usado novas abordagens que ajudam as pessoas a entenderem como a mente funciona sobre a alimentação para fazerem às pazes com a comida.

Já parou para pensar por que você come o que você come? Ou por que você almoça em determinado horário? Ou o porquê tem fome depois do jantar?

Vivemos em uma sociedade ansiosa e cercada de dietas e cobranças sobre o corpo. Com isso, as pessoas ficam muito desconectadas de suas percepções internas. O nosso trabalho é ajudar a pessoa a entender o porquê come como come e quais as percepções sobre a comida. — Manoela Figueiredo, nutricionista especialista em transtornos da alimentação pela USP.

Algumas dessas técnicas são o mindful eating (comer com atenção plena) e o intuitive eating (comer intuitivo).

As técnicas existem desde os anos 90 e são aplicadas em centros médicos e hospitais pelo mundo no tratamento de pessoas com transtorno alimentar, obesidade e também em quem tem uma má relação com a comida.

Uma pesquisa da Universidade Brown, nos Estados Unidos, observou 104 mulheres com sobrepeso que foram submetidas ao mindful eating. Ao fim do estudo, com a aplicação da técnica, perceberam que a alimentação emocional e os excessos reduziram em 40%.

O Mindful eating foi usado pela cantora Demi Lovato, diagnosticada com bulimia. Em 2022, ela disse que a técnica fazia parte do tratamento e que a ajudou a estabelecer uma nova relação com a comida depois de anos com medo de comer.

Como é na prática?

Comer intuitivo: antes de comer, observar o sinal de fome e dar nota em uma escala de 0 e 10. Depois, observar na mesma escala o quanto ficou feliz com o que comeu (se queria ter comido outra coisa, mas não fez por medo) e o quanto ficou satisfeito. Na prática, é a pessoa quem escolhe o que e quando come, mas com uma análise acompanhada.

⚠️ Ah, mas pode comer tudo que quiser? O que a nutricionista explica é que todos os alimentos são permitidos, mas o que as pessoas precisam é refazer a relação para repensar uma quantidade. Uma pessoa que passou muito tempo de dieta sem poder comer chocolate, por exemplo, pode comer uma caixa inteira na permissão por compulsão. Mas, se não há restrição, não há o porquê ter compulsão. O alimento é permitido.

As pessoas chegam ao consultório falando que sofrem ao comer, que têm medo, que vivem de dieta e odeiam seus corpos. As pessoas não precisam de dieta, mas de refazer sua relação com a comida e com elas mesmas. — Marle Alvarenga, nutricionista especialista em comer intuitivo

Mindful eating: a proposta é criar um ambiente (arrumar a mesa, o prato), se concentrar nos sinais que o corpo dá de fome, vontade e saciedade, e se distanciar de telas para comer. Para pessoas que comem compulsivamente, uma das propostas é comer com o garfo do lado inverso ou até usando hashi (palito japonês) até que consiga desacelerar para entender o que come.

Esses exercícios variam com a demanda de cada pessoa. Uma pessoa com obesidade come um pacote de bolacha. Não vamos trocar isso por uma maçã, mas entender o gatilho para ela extrapolar a saciedade e comer o pacote todo. Aos poucos, ela deixa de comer essa quantidade e mantém um equilíbrio. — Manoela Figueiredo, nutricionista aprimorada em transtornos da alimentação pela USP.

Todo mundo pode fazer? Sim, mas não sem acompanhamento, pois é necessário observar o contexto. Por exemplo, uma pessoa com compulsão alimentar e sobrepeso não vai conseguir sozinha e sem outros suportes respeitar o limite de saciedade. Assim como pessoas com anorexia têm os sinais de fome alterados e precisam de ajuda para retomar a alimentação.

“É um trabalho cuidadoso e individual. Para muitas pessoas, abandonar essas regras é como chutar o pau da barraca. Mas existem dietas a vida toda e ainda assim vemos a obesidade crescer no Brasil, o que explica? A única resposta é uma nova relação com a comida”, diz Manoela.

Créditos: g1.

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Fonte: TBN


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